Um sapato é um produto mais técnico do que parece: uma forma que define o tamanho e o conforto, uma gáspea de couro, tecido ou material sintético, uma sola cujo material determina a duração, o peso e a resistência ao escorregamento, e um método de união entre as duas que separa o sapato que dura anos daquele cuja sola se descola ao fim de um mês. Nas botas militares e no calçado de segurança, tudo isto se transforma em especificações verificáveis em ensaio segundo normas internacionais, porque aqui o calçado é um equipamento de proteção e não uma peça de moda.
Esta página abrange o calçado de uso diário e desportivo, as botas militares e táticas e o calçado de segurança profissional. O vestuário — incluindo o vestuário de trabalho de alta visibilidade — tem a página Vestuário, e os cintos e as mochilas estão em Acessórios.
Onde se fabrica calçado na China?
O fabrico de calçado concentra-se em Fujian, Guangdong e Zhejiang, com uma especialização clara: Fujian para o calçado desportivo, Guangdong para a exportação e o calçado de senhora, e Zhejiang para o calçado de couro de homem e o calçado injetado.
- Fujian: Jinjiang, em Quanzhou, é a capital do calçado desportivo na China e sede de grandes marcas desportivas chinesas, e Putian é um vasto centro de fabrico de calçado desportivo por conta de terceiros.
- Guangdong: Dongguan — e, em particular, a vila de Houjie — é um centro de fabrico de calçado para exportação e de componentes e máquinas para a indústria; Guangzhou tem mercados grossistas de calçado e fábricas de calçado de senhora; e Huidong, em Huizhou, dedica-se ao calçado de senhora e às sandálias económicas.
- Zhejiang: Wenzhou, para o calçado de couro de homem, e Wenling, em Taizhou, para o calçado injetado, o calçado leve e os chinelos.
- Sichuan: Chengdu é um centro conhecido de calçado de senhora.
As botas militares e táticas e o calçado de segurança têm fábricas menos numerosas e mais especializadas, distribuídas por Fujian, Guangdong, Shandong e outras províncias. Aqui, o critério de escolha não é a região, mas a capacidade de ensaio da fábrica: tem laboratório interno para a força de colagem e a flexão, e dispõe de relatórios de laboratórios independentes segundo a norma que exige?
Que materiais e métodos de fabrico se usam no calçado?
Um sapato descreve-se por três elementos, sem os quais nenhuma cotação está completa: o material da gáspea, o material da sola e o método de união entre ambos. Trocar qualquer um deles por um material mais barato altera ao mesmo tempo o preço e a duração, pelo que cada elemento se escreve pelo nome e não por uma descrição:
| Elemento | Opções comuns | O que escrever na especificação |
|---|---|---|
| Gáspea | Couro natural flor integral ou crosta, microfibra, PU, malha (mesh), lona, nylon de alta densidade | Tipo de couro, camada e espessura em milímetros, ou densidade do tecido, como 1000D |
| Entressola | EVA, Phylon (EVA comprimido), PU | Densidade, dureza e peso do par |
| Sola exterior | Borracha natural ou sintética, borracha nitrílica, TPR, PU, PVC | Material, resistência à abrasão e, quando necessário, resistência aos óleos e ao escorregamento |
| Método de fabrico | Colagem, vulcanização, injeção direta, costura Goodyear | O método pelo nome, com uma força mínima de colagem da sola |
| Biqueira de proteção | Aço, compósita (fibra de vidro, carbono ou plástico técnico), alumínio | Material e nível de proteção em joules, segundo a norma exigida |
Cada método tem a sua lógica: a colagem é a mais comum no calçado desportivo e de senhora e a mais barata, e a sua qualidade depende da cola e da preparação da superfície. A vulcanização usa-se nos sapatos de lona com sola de borracha. Na injeção direta, a sola é injetada sobre a gáspea dentro do molde e as duas fundem-se sem cola — é comum no calçado de segurança e de trabalho. Já a costura Goodyear une a sola através de uma vira costurada: é mais pesada e mais cara, mas mais resistente e permite trocar a sola, pelo que é a preferida nas botas militares de alta resistência.

Que especificações têm as botas militares e táticas?
A bota militar define-se pela resistência às condições, não pelo aspeto: gáspea de couro flor integral com painéis de nylon de alta densidade, sola de borracha resistente ao escorregamento, aos óleos e ao calor, cano que apoia o tornozelo, impermeabilidade comprovada por ensaio e, se for exigida, biqueira de proteção de nível definido. As especificações a escrever no contrato:
- Gáspea: couro flor integral de espessura definida — nas botas militares, muitas vezes entre 1,8 e 2,2 mm —, com painéis de nylon de densidade como 1000D nos modelos mais leves, e couro com tratamento hidrófugo prévio.
- Sola: borracha resistente aos óleos e aos combustíveis, com piso profundo que expulsa a lama, e resistente ao calor por contacto se o uso for no deserto ou junto a equipamentos quentes.
- Impermeabilidade: couro tratado com língua de fole unida às laterais, que impede a entrada de água e areia, ou membrana interior impermeável que deixa sair o vapor. Comprova-se por ensaio e não por descrição: penetração de água na gáspea sob flexão, ou imersão do calçado completo.
- Biqueira: de aço ou compósita nas botas táticas pesadas e no calçado de segurança, ou sem biqueira de proteção nas botas de combate leves, que privilegiam o peso e a flexibilidade.
- Guarnições: ilhoses e ganchos resistentes à corrosão, fecho de correr lateral de marca conhecida se for pedido, e linha de nylon de alta resistência.
- Cor: preto, areia ou «coyote», num tom aprovado por amostra, porque a variação de tom entre lotes costuma ser motivo de rejeição nas encomendas de entidades.
Quando a entidade compradora exige uma especificação militar do tipo MIL-SPEC ou uma especificação nacional própria, a referência é o número e a edição da especificação no caderno de encargos, e não o catálogo da fábrica. Peça relatórios de ensaio que citem a própria especificação pelo número, confirme que foram emitidos por um laboratório independente e não aceite a expressão «conforme às especificações militares» sem número.
O que é a norma EN ISO 20345 para calçado de segurança e quais são as suas categorias?
A EN ISO 20345 é a norma internacional do calçado de segurança: exige uma biqueira de proteção que resista a um impacto de 200 J e a uma compressão de 15 kN, e classifica depois o calçado em categorias que indicam a proteção adicional. É acompanhada por duas normas: a EN ISO 20346, para calçado de proteção com biqueira de 100 J, e a EN ISO 20347, para calçado de trabalho sem biqueira de proteção. Nos Estados Unidos, a norma para calçado com biqueira de proteção é a ASTM F2413. Estas são as principais categorias:
| Categoria | O que acrescenta | Utilização típica |
|---|---|---|
| SB | Requisitos básicos, incluindo a biqueira de proteção | Ambientes secos, apenas com risco de queda de objetos |
| S1 | Zona do calcanhar fechada, propriedades antiestáticas e absorção de energia no calcanhar | Armazéns e fábricas secos |
| S2 | O mesmo que S1, mais resistência da gáspea à penetração e absorção de água | Ambientes com salpicos ou limpeza húmida |
| S3 | O mesmo que S2, mais resistência da sola à perfuração e sola com relevo | Estaleiros de construção e obras |
| S6 | O mesmo que S2, mais resistência do calçado completo à água (edição de 2022) | Trabalho prolongado em ambiente molhado |
| S7 | O mesmo que S3, mais resistência do calçado completo à água (edição de 2022) | Locais a descoberto e com chuva |
À categoria juntam-se símbolos de proteção adicional consoante o ambiente de trabalho, sendo os mais conhecidos: P, para a resistência à perfuração da sola com palmilha metálica — na edição de 2022, a palmilha não metálica passou a ser identificada por PL ou PS, consoante o diâmetro do prego usado no ensaio —; HRO, para a sola que resiste ao contacto com uma superfície a 300 °C; CI e HI, para o isolamento do frio e do calor; WR, para a resistência do calçado completo à água; M, para a proteção do metatarso; e FO, para a resistência da sola aos combustíveis e óleos.
A resistência ao escorregamento merece atenção: na edição de 2011 era identificada por SRA, SRB e SRC; na edição de 2022, o ensaio de escorregamento em ladrilho cerâmico com solução detergente passou a ser um requisito básico, e foi acrescentado o símbolo SR para um ensaio adicional em superfície com glicerina. Se a fábrica lhe indicar um símbolo, pergunte: segundo que edição da norma? E peça o relatório que o comprova. As edições são atualizadas, pelo que deve verificar a edição adotada no país de destino antes da produção.
O que verificar antes de fornecer calçado a entidades militares ou de segurança?
O fornecimento de calçado e equipamento a entidades militares ou de segurança pode estar sujeito a condições e licenças específicas no país de destino, e a sua verificação vem antes do contrato com a fábrica, e não depois. Alguns países exigem a qualificação do fornecedor ou uma licença de importação específica para o equipamento destinado a estas entidades, outros restringem a importação do que reproduz o uniforme oficial ou leva emblemas e insígnias das forças, e a entidade compradora pode exigir inspeção ou aprovação da amostra antes do embarque.
- Verifique os requisitos junto da autoridade competente do seu país ou de um consultor jurídico antes de assinar — a Alshumul não presta aconselhamento jurídico.
- Não imprima o emblema ou a insígnia de uma entidade oficial na mercadoria sem autorização escrita dessa entidade.
- Distinga a bota tática civil, vendida a particulares, a empresas de segurança privada e a praticantes de caminhadas, do fornecimento a uma entidade oficial com caderno de encargos: cada um segue um percurso diferente.

Como se ajustam os tamanhos de calçado entre os diferentes sistemas?
Adote o comprimento do pé em milímetros como referência única, e não apenas os números europeus ou americanos, porque a conversão entre eles não é uniforme entre fábricas. O sistema chinês exprime o comprimento do pé em milímetros — o tamanho 250 corresponde a um pé de 25 cm —, o europeu usa uma unidade equivalente a dois terços de centímetro, o americano e o britânico usam outras, e as tabelas de conversão podem diferir em meio número ou mais de uma fábrica para outra.
- Peça uma tabela que ligue cada tamanho ao comprimento do pé e ao comprimento interior do sapato, em milímetros.
- Defina a largura: uma forma estreita não serve a muitos consumidores e é motivo de devolução tão frequente como o comprimento.
- Aprove a forma com amostra: é a forma que define realmente o tamanho e o conforto, e mudá-la entre a amostra e a produção muda tudo.
- Defina a grelha de tamanhos consoante o seu mercado; no calçado de homem, normalmente entre o 39 e o 45 europeus, com a quantidade concentrada nos tamanhos intermédios.
Que inspeções e ensaios são importantes no calçado?
O ensaio mais importante em qualquer sapato é a força de colagem da sola à gáspea, porque o descolamento da sola é o defeito mais frequente do calçado e o que mais prejudica a reputação do vendedor. A par dele:
- Resistência à flexão: dobrar a sola e a gáspea milhares de vezes, para ver se aparecem fissuras.
- Resistência à abrasão: quanto material a sola exterior perde sob fricção.
- Substâncias restritas: o crómio hexavalente no couro curtido ao crómio, limitado na União Europeia a 3 mg/kg nos artigos de couro em contacto com a pele; os corantes azoicos; e o DMFu, antibolor proibido na Europa depois de ter causado alergias cutâneas em utilizadores de calçado e mobiliário tratados com ele.
- Inspeção da produção: correspondência entre os dois pés do par no tamanho e na cor, alinhamento das costuras, restos de cola visíveis, limpeza do calçado e integridade da caixa.
Como o calçado se inspeciona por pares e por tamanhos, faça com que o plano de inspeção pré-embarque inclua amostras de cada tamanho e cor, com um nível de aceitação claro, como em Inspeção pré-embarque e critérios AQL, e leia o resultado como explica o guia Como ler um relatório de inspeção.

Quais são os riscos comuns na importação de calçado?
Os maiores riscos no calçado são a contrafação, o bolor, a diferença entre amostra e produção no material e na forma, e as alegações de conformidade com normas sem relatórios.
- Contrafação: o calçado desportivo é um dos artigos mais contrafeitos do mundo, e o desenho da sola ou das riscas laterais pode estar protegido tal como o logótipo; um envio contrafeito fica sujeito a apreensão e destruição. Consulte Proteção da marca e da propriedade intelectual.
- Bolor no contentor: o couro, a sola e a cola retêm humidade, e uma viagem marítima por zonas quentes basta para o bolor aparecer. A prevenção passa por secagem completa antes da embalagem, exsicantes autorizados e papéis antibolor isentos de substâncias proibidas.
- Substituição do material: couro flor integral na amostra e crosta pintada na produção, ou sola de borracha na amostra e TPR na produção. O remédio é uma amostra aprovada cortada, que mostre a secção, e os materiais identificados pelo nome no contrato.
- Alteração da forma: o sapato de produção sai ligeiramente mais estreito ou mais curto do que a amostra. O remédio é medir os comprimentos interiores na inspeção.
- Alegações sem relatórios: «biqueira de aço», «antiderrapante» ou «S3» impressos na caixa sem relatório de laboratório — o que, por si só, é motivo suficiente para rejeitar o envio num mercado que exige certificação.
Como se transporta calçado da China?
O calçado em caixa atinge o limite de volume antes do de peso, pelo que o frete se calcula ao metro cúbico, e o contentor mais adequado para grandes quantidades é o de 40 pés high cube. É o volume da caixa do sapato que manda nas contas: um contentor de 40 pés high cube leva alguns milhares de pares de calçado desportivo em caixa, e muito menos botas militares de cano alto, porque as caixas são maiores. O número real depende das dimensões das caixas exteriores, pelo que deve ser calculado a partir da lista de embalagem e não de uma estimativa genérica.
- Caixa exterior de cartão de parede dupla com um número fixo de pares, com a distribuição de tamanhos escrita no exterior.
- Enchimento interior que mantém a forma da biqueira, exsicantes e um saco por par.
- Para pequenas quantidades, grupagem com embalagem mais resistente, porque os volumes são mais manuseados — consulte Grupagem (LCL) e, para o ponto em que compensa passar ao contentor completo, o guia FCL vs. LCL.
A posição pautal situa-se no capítulo 64 do Sistema Harmonizado e depende do material da gáspea e da sola, e o calçado com biqueira metálica de proteção tem subposições próprias. Escreva na fatura uma descrição com o material real, porque a palavra «calçado», sozinha, não chega para uma classificação correta.
Como importar calçado da China?
- Defina primeiro a utilização: diária, desportiva, de segurança ou militar — é a utilização que determina a norma e os materiais, antes do design.
- Escreva a especificação: material e espessura da gáspea, material da sola, método de fabrico, biqueira de proteção, categoria e símbolos da norma, se aplicável, e tabela de tamanhos em milímetros.
- No fornecimento a entidades militares ou de segurança, verifique as condições e as licenças do país de destino antes de qualquer compromisso com a fábrica.
- Procure uma fábrica especializada na mesma categoria e peça os seus relatórios de ensaio anteriores; de preferência, faça uma auditoria de fábrica antes da encomenda.
- Peça amostras dos tamanhos principais e teste-as calçando-as e medindo-as, com uma amostra cortada que mostre o material e a montagem da sola.
- Aprove a amostra e a forma, e assine a ordem de compra com as especificações e os relatórios de ensaio exigidos.
- Acompanhe a produção no corte e na montagem da sola, e peça ensaios de colagem em pares da própria produção.
- Inspecione antes do embarque com amostras de cada tamanho e cor.
- Organize o transporte e reveja os documentos, as posições pautais e os relatórios de ensaio antes da partida do navio; para os percursos de certificação de conformidade, consulte Certificações de conformidade SASO/SABER, ECAS e CE.
O papel da Alshumul na importação de calçado e botas militares
A Alshumul Serviços Comerciais é uma empresa de importação e exportação sediada em Guangzhou, perto dos polos de calçado de Guangdong, e trabalhamos com fábricas de Fujian e Zhejiang quando é lá que está a especialização pretendida. O que fazemos:
- Pesquisa e verificação de fábricas especializadas: uma fábrica de calçado desportivo não é uma fábrica de calçado de segurança, e distinguimos a fábrica que tem linha de injeção ou de costura do intermediário que passa a encomenda a outros.
- Auditoria e visita à fábrica: linhas de fabrico, laboratório interno, e relatórios de ensaio anteriores segundo a norma exigida, com a respetiva origem.
- Pedido e acompanhamento de amostras, e sua comparação com a especificação escrita antes da aprovação.
- Negociação direta com a fábrica, em chinês, dos materiais, da forma, da categoria e dos símbolos da norma, e do preço.
- Acompanhamento da produção e inspeção pré-embarque: colagem, costuras, tamanhos e embalagem, com relatório fotográfico antes do carregamento.
- Organização do transporte em contentor completo ou grupagem, através de companhias de navegação e consolidadores, revisão dos documentos antes da partida do navio e acompanhamento até ao porto de descarga.
Nas encomendas para entidades militares e de segurança, em particular, verificar as licenças e as condições de fornecimento no país de destino é responsabilidade do importador, junto da autoridade competente ou do seu consultor jurídico, e o nosso papel começa do lado da fábrica, depois de o enquadramento legal estar definido. O desalfandegamento no país de destino está fora do âmbito dos nossos serviços.
